terça-feira, 27 de abril de 2010

UGANDA TEM PROJETO QUE PODE CONDENAR GAYS À PENA DE MORTE


Muitos gays já foram xingados e até atacados e são obrigados a viver quase que clandestinamente num país que não reconhece o homossexualismo como direito humano.


Enquanto em diversos lugares do mundo os homossexuais vêm conquistando direitos como casar e adotar crianças, na África mais de 30 países consideram crime ser gay. Um desses países é Uganda. Por lá, a lei está prestes a ficar ainda mais severa. Um projeto que será votado agora em maio quer incluir pena de morte entre as punições aos homossexuais.

Em Uganda, no leste da África, um homem é considerado um fora da lei. O crime dele? Ser homossexual assumido. “Eu acordo todo dia sem saber o que vai acontecer comigo”, diz Frank Mugisha, de 28 anos, um dos líderes do movimento gay no país.

Entrevistá-lo não foi nada fácil. Mugisha tinha medo do local do encontro. A equipe de produção do Fantástico teve de convencê-lo de que a reportagem não era uma armadilha. Tanto medo tem motivo: um projeto de lei polêmico, que deve ser votado até o fim de maio, está provocando uma forte perseguição aos gays em Uganda.

“Se você declarar que é gay, se fizer isso em público, deve ser retirado das ruas e ser preso, porque a homossexualidade é crime”, diz David Bahati, deputado de 36 anos e autor do projeto.

O simples fato de se declarar gay poderá levar à prisão perpétua. O projeto também defende que parentes e vizinhos denunciem quem for homossexual, sob pena de também serem presos. E há até pena de morte prevista, no caso de um adulto tentar seduzir um menor do mesmo sexo.

Para Bahati, distribuir panfletos próximo a escolas alertando sobre a Aids já deve ser considerado uma tentativa de aliciamento. “Aqui homem dormir com homem é um tabu. É pecado. É tão horrível quanto roubar”, afirma o deputado.

Hoje o homossexualismo já é crime em Uganda, mas só há prisão em caso de flagrante. Pelo novo projeto, basta alguém acusar uma pessoa de ser gay. O ministro da Ética e Integridade, James Obuturo, que cuida da tramitação da lei no Parlamento, apoia o projeto.

“Do ponto de vista da nossa cultura e da nossa espiritualidade, o homossexualismo é algo abominável”, acredita o ministro.

A maioria da população de Uganda concorda com o governo. Em fevereiro, cerca de 25 mil pessoas foram às ruas manifestar aprovação à lei anti-gay. Para um homossexual andar pelas ruas em Uganda se tornou perigoso. Muitos gays já foram xingados e até atacados. Eles são obrigados a viver quase que clandestinamente.

Frank Mugisha conta que é obrigado a mudar de casa constantemente e que evita certos lugares para não sofrer ataques verbais ou até físicos. Warry Sssenfuka, outra ativista, também tem medo de andar pelas ruas. Mesmo assim, ela carrega o símbolo do movimento gay no pulso e faz questão de usar calças compridas.

“Aqui mulher tem que andar de vestido, mas eu não quero usar vestido. Gosto de me vestir assim. Por isso, é fácil as pessoas me apontarem na rua e dizerem: ‘Ah, ela é gay’”, diz Warry Sssenfuka, de 28 anos.

Warry se formou em telecomunicações, mas jamais conseguiu emprego no setor por preconceito. Ela trabalha em uma organização não-governamental que faz campanha de prevenção a Aids e luta pelos direitos dos homossexuais. Se a lei for aprovada, o local passará a ser ilegal e terá de fechar as portas. O escritório fica em um bairro residencial. Por segurança, não há nada do lado de fora que indique que se trata de uma ONG.

Um milhão de pessoas tem o vírus HIV em Uganda. A estatística mais recente é de 2008, ano em que 91 mil pessoas morreram no país em consequência da Aids. ONGs como a de Warry trabalham para tentar evitar que a epidemia aumente, mas são vistas pelo governo como promotoras do homossexualismo.

“Gays têm três vezes mais chance de pegar o HIV. Por isso, combater o homossexualismo é combater a Aids”, defende o deputado David Bahati.

Nos últimos meses, a pressão internacional para que o projeto não seja votado aumentou. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, declarou que a lei é abominável.

“Aqui nós não reconhecemos o homossexualismo como um direito humano. Pode ser assim no Brasil ou na América. Mas o que é bom para esses países pode não ser bom para Uganda”, afirmou o deputado.

Não há lugar mais perigoso e pior para um homossexual viver do que o continente africano.

Em mais de 30 países da África, o homossexualismo é crime, com penas que variam desde multa equivalente a R$ 300 até a prisão perpétua. A exceção é a África do Sul, país da Copa. Desde 2006, lá é permitido o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Já no Sudão, na Mauritânia e em algumas partes da Somália e da Nigéria, a punição para gays é a pena de morte.

Christopher Senyonjo, ex-bispo da Igreja Anglicana em Kampala, luta para que Uganda não seja o quinto país a entrar na lista . “Não podemos condenar o amor, porque esse amor é diferente. Não podemos compará-lo a crimes. É difícil aceitar e entender o que eles propõem”, defende o ex-bispo.

Por defender os gays, Christopher Senyonjo foi afastado da Igreja Anglicana e não pode mais pregar. Se a lei for aprovada, a caçada aos gays será ainda mais implacável em Uganda. “Eu serei uma das últimas a permanecer de pé. Vou até o fim”, diz Warry Sssenfuka. “Eu vou ficar até não dar mais”, afirma Frank Mugisha.

FONTE:
http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL1578920-15605,00-UGANDA+TEM+PROJETO+QUE+PODE+CONDENAR+GAYS+A+PENA+DE+MORTE.html

NEM MASCULINO, NEM FEMININO! E SE DEUS FOR GAY?


Um novo olhar sobre a questão do gênero humano e da imagem de Deus.


Reverendo Elias Mayer Vergara, ost

Para pensar na imagem de deus, precisamos pensar na imagem do ser humano. As categorias que atribuímos a Deus, são as categorias humanas: Pai, filho, mãe, espírito.... Se nossa representação de Deus é sempre uma representação do humano divinizado, quero então postular por um Deus gay!

É necessário de início fazer uma distinção clara entre sexo e gênero, para que possamos nos aventurar a este novo olhar. O sexo é um fator orgânico, biológico e é definido pelo espermatozóide que possui somente duas categorias: o masculino e o feminino. O sexo então estará claramente definido pelos órgãos genitais masculinos e femininos, pênis e vagina. Na natureza, do ponto de vista do sexo, há ainda a possibilidade da existência do hermafrodita. Este último sempre considerado como uma anomalia, pois desconstrói nossa bipolaridade quanto ao que a natureza humana pode produzir em relação a perpetuação da espécie. Outra coisa bem diferente é o gênero humano. O gênero é definido socialmente. É aquilo que uma determinada cultura atribui ao sexo feminino ou masculino. Para os escoceses usar saia é um hábito extremamente masculino, já para a nossa cultura ocidental, este é um costume ligado ao feminino. Assim, culturalmente definimos uma série de comportamentos, costumes, símbolos que atribuímos à homens e à mulheres de forma bem distinta. Assim sendo o sexo é aquilo que a natureza biológica produz, e o gênero é aquilo que a cultura produz .

Havendo gravidez, começam as especulações: será um menino? Será uma menina? Ninguém pergunta: será um homossexual?

Ninguém deseja ter um filho ou uma filha homossexual. Pois a homossexualidade é uma ameaça aos padrões sexuais definidos socialmente. É uma ameaça ao gênero. E confrontar estes padrões passa a ser um esforço que demanda muita energia.

Quando o obstetra dá a notícia do sexo para a mãe e o pai do bebê, ainda no ventre materno, já começa uma batalha social para garantir que o sexo anunciado vai de fato corresponder ao gênero desejado. Se for menino, a mobília do quarto, o enxoval do bebê, tudo estará relacionado com os padrões masculinos: a roupa do bebê poderá ser de qualquer cor, menos rosa, pois rosa é uma cor que identifica as meninas. No quarto do menino haverá uma mobília de cores fortes, e os motivos que ornamentarão o ambiente serão ligados a força, a guerra, a bravura. Entre os brinquedos dos meninos jamais estarão as bonecas, as miniaturas dos utensílios domésticos, pois estas coisas são de meninas. Já se o sexo for de menina, o cor será o rosa, os motivos de ornamentação serão suaves e lembrarão a ternura e os brinquedos serão bonecas e outros ligados as tarefas e afazeres do lar.

Muitas pesquisas demonstram que este cuidado em definir padrões simbólicos masculinos e femininos, são os responsáveis pela construção do mundo patriarcal e machista que conhecemos muito bem. Aquilo que é atribuído às mulheres como gênero feminino, cria nelas uma atitude de dependência, de fragilidade e subserviência. Já aquilo que é atribuído aos homens cria neles uma atitude dominadora, de força e de sub-jugamento. Ou seja, a sociedade para manter-se patriarcal e machista constrói para cada categoria sexual, um sistema simbólico próprio, que irá reproduzir e perpetuar os mesmos padrões sociais.

Levanto uma outra hipótese para ampliar esta discussão sobre o Deus gay: a necessidade cultural de definir padrões masculinos e femininos deve-se ao grande medo existente em nossa cultura ao gênero do homossexual. Assim como o hermafrodita é considerado uma anomalia sexual da natureza, o homossexual é considerado uma anomalia do gênero humano. E se deus for gay?

Quanto mais a cultura de nossa sociedade tentar forjar esteriotipadamente homens e mulheres com categorias absolutas, estará admitindo em seu inconsciente coletivo, a possibilidade do homossexual. Ninguém tem medo daquilo que não existe, a não ser que acreditemos em fantasmas. E a homossexualidade é uma realidade, ela existe de fato. Parece que acreditamos muito no ditado: “o hábito faz o monge”. Nem sempre isso é verdade. Mas com certeza nenhum monge se faz sem o hábito. Se há a necessidade de vestirmos os meninos diferentemente das meninas, isso prova que não basta ter um pênis ou uma vagina para que seja definido o gênero masculino e o gênero feminino.

Postular por uma categoria divina homossexual, é postular pela inserção da homossexualidade como categoria hermenêutica viável para se ler a vida humana na sociedade. Uma hermenêutica homossexual da Bíblia poderá também nos ajudar a relativizar a polaridade existente hoje entre uma hermenêutica machista e outra feminista da Bíblia. Isso fica muito evidente quando aprofundamos as discussões sobre qual gênero que podemos atribuir a Deus. Deus é masculino ou feminino? A possibilidade de um Deus homossexual pode ser muito mais desafiadora. Aliás não há registros na Bíblia de que alguém tenha visto o sexo de Deus. Se Deus não tem um sexo definido, assim como os hermafroditas, qualquer gênero lhe poderá ser atribuído. Deus pode também ser um deus gay.

Portanto a melhor composição trinitária poderia ser: Masculino, feminino e homossexual. Assim teríamos um deus muito mais humano e encarnado.

EVA LIBERTADA: UMA LEITURA MÍSTICA DA TRANSGRESSÃO


Reverendo Elias Mayer Vergara, OST 

O mito de Gênesis 3, traz como principal protagonista a personagem Eva, que dentro do enredo mitológico tem historicamente sido interpretada como a causadora do pecado e da queda do homem. Assim a Igreja tem justificado uma série de comportamentos de domínio e de menosprezo ao papel da mulher.

A delimitação do texto mitológico de nossa reflexão está contida entre Gn 2, 25 – Gn 4, 1. Em Gênesis Gn 2, 25, a nudez do homem e da mulher não desperta nenhum interesse sexual, em Gn 3, 7 a nudez desperta interesse sexual que é contido pela lógica do jardim e em Gn 4, 1, fora do jardim, homem e mulher completam-se sexualmente. A sexualidade portanto é o eixo deste enredo mitológico. Inicialmente negada, depois despertada e finalmente exercida. Fica claro portanto que quando nos referirmos à Gênesis 3, estaremos incluindo o verso anterior e posterior a este capítulo.

A “jornada do herói” que é um esquema hermêutico consolidado entre pesquisadores do gênero do mito será aqui utilizada no processo de desconstrução monossêmica (um só sentido) feita no mito de Gênesis 3.

A transgressão sempre interpretada de forma negativa por aqueles que são encarregados de manter a ordem institucional, aqui será vista como o elemento

místico necessário para romper com a realidade estabelecida. Eva nos ajudará a um exercício da mística da transgressão que se opõe frontalmente ao exercício piedoso da mística da obediência, que por ser cega e alienante, nunca transpõe a realidade dada, fortalecendo assim as estruturas sociais e religiosas de desigualdade e opressão.

A “jornada do herói” se constitui em uma estrutura arquetípica muito presente na maioria dos mitos. Ao evocar o herói mítico, é despertado dentro de cada um que vivência a narrativa mitológica, o herói existente arquetipicamente em todos os seres humanos. Este é o mistério que envolve a história de vida de todos os santos, profeta e dos heróis míticos. A energia que alimenta uma caminhada transgressora é pois a energia mística que faz com que o herói mítico, o santo ou o profeta encontrem forças suficientes para transformar o mundo dado, no mundo esperado.

Convido o leitor a despojar-se da densa força dogmática existente no mito do jardim de Gênesis 3, abrindo a possibilidade para múltiplas interpretações e significados. A “jornada do herói” será utilizada aqui como um roteiro de leitura bíblico, que pode também ser chamado de roteiro da mística dos santos, profetas e dos heróis, que só são assim considerados, pois foram movidos pela energia mística da transgressão rompendo com o mundo dado, possibilitando assim o mundo esperado.

Segundo Capel , a jornada do herói mítico é construída através de seis principais passos:

1. a inocência,

2. o chamado à aventura,

3. a iniciação,

4. os aliados,

5. o rompimento

6. celebração.

1. Primeiro passo: a inocência

Segundo Capel , o estado de inocência na jornada do herói mítico é uma perfeita adequação do indivíduo ao status quo. Não há nesta fase nenhum sinal dos desafios que sobrevirão. O herói arquetípico parte de um estado de inocência e relativa ingenuidade.

Ora, os dois estavam nus, o homem e sua mulher, e não se envergonhavam.

Em Gênesis 2, 25, a nudez é despojada de qualquer sentimento de vergonha, ou de desejo sexual. Pode-se afirmar portanto, que o homem e a mulher não percebiam-se sexualmente, embora estivessem nus. Entre eles não havia o outro e consequentemente o desejo do outro. Nessa introdução mitológica, a relação humana é de completa nomia social. É a vida que caiu em sua rotina. Nada acontece de novo. A ordem precisa ser mantida.

2. Segundo passo: o chamado à aventura

Capel afirma que o segundo passo da jornada do herói é marcada pela quebra da ordem do paraíso. Alguma coisa rompe os padrões e desafia o herói a submeter-se a uma prova. Este chamado pode expressar-se como uma crise, uma doença. Essa fase está relacionada ao desejo secreto que todos temos de crescer, de realizar nosso verdadeiro ser. Neste momento só há duas possibilidades: atender ou não ao chamado. Não atender implica em manter-se no estado de inocência; atender implicará em saltar no desconhecido.

A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Iahweh Deus tinha feito. Ela disse à mulher: ‘Então Deus disse: Vós não podeis comer de todas as árvores do Jardim?” A mulher respondeu à serpente: ‘Nós podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Dele não comereis, nele não tocareis, sob pena de morte’. A serpente disse então à mulher: ‘Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal’.

Na narrativa mitológica de Gênesis 3, este é o momento em que o personagem masculino Adão é completamente afastado da narrativa. A mulher, que ainda não tem um nome, tem um grande encontro com a serpente que é o mais polêmico e ambíguo personagem desta história.

A serpente representa, entre tantas coisas, o símbolo arquetípico fálico. É uma força divina que está agora a encantar aquela mulher que vivia na apatia e na nomia do jardim. O falo que ergue-se diante de si em forma de serpente, propõe à mulher quebrar as regras que o Deus Iahweh havia estabelecido. O encontro com a serpente desperta um desejo até então contido: o desejo de ser também um Deus, o que é ativado pela pulsão da sexualidade. E qual é o maior atributo de um Deus senão a sua capacidade criadora? E criar é sempre uma atividade que envolve energia sexual. A mulher é possuída pela força fálica da serpente, que lhe dá forças suficientes para lutar contra a apatia e a nomia do Jardim. A mística transgressora é pois uma mística que envolve energia sexual. Este encontro da mulher com a serpente está envolto de grande energia sexual. O desejo, sentimento profundamente humano e sexual, é aqui despertado. Sem desejo é impossível viver a mística da transgressão.

3. Terceiro passo: a iniciação.

Segundo Capel , na jornada do herói, a iniciação se dá no momento em que o herói se depara com novos e estranhos mundos, confronta-se com a possibilidade da morte, extraindo assim dentro de si a força e a sabedoria desconhecidas para sobreviver.

A mulher viu que a árvore era boa ao apetite e formosa à vista, e que essa árvore era desejável para adquirir discernimento. Tomou-lhe o fruto e comeu.

Aqui a mulher vai ao encontro da satisfação de seu desejo. O desejo é ser também um Deus, assim como a Serpente e Iahweh o são. Para se transformar em um Deus criador, era necessário encontrar-se com a divindade da árvore do

bem e do mal, pois esta já exercia sua capacidade criadora: ela produzia frutos. A árvore pode arquetipicamente representar tanto o feminino como o masculino. A mulher apenas conhecia o feminino. Comer o fruto coloca a mulher em contato também com o masculino que fecundou a árvore e assim é iniciada na tarefa criadora, procriadora. O fruto é o resultado da sexualidade da árvore, e outras vezes pode representar o próprio ato sexual. Este encontro com a árvore do bem e do mal pode simbolicamente representar a iniciação sexual da mulher.

Na mística da transgressão não se pode evitar ou negar os opostos. Aquela mulher completamente apática e indiferente a sua sexualidade não é mais a mesma. Ela já entendeu que para ser um Deus criador, é necessário o encontro do feminino com o masculino.

4. Quarto passo: os aliados

Para Capel o herói necessita de ajuda em sua jornada, que pode ocorrer através de conselhos, de amuletos, ou pode ainda ser fruto da própria crise promovida pelo chamado ou pela iniciação. Os aliados representam reservas de sabedoria que o herói pode utilizar para enfrentar sua jornada de rompimento.

Deu-o também a seu marido, que com ela estava e ele comeu.

Na narrativa mitológica de Gênesis 3, a serpente e a árvore despertam através de sua representação fálica a sexualidade na mulher. Esta vai então encontrar-se com o homem Adão que está completamente absorvido pela lógica da apatia e nomia do jardim. É um homem sem nenhum poder fálico. Então, a mulher oferece-lhe o saboroso fruto do qual acabara de comer. O homem compartilha daquele desejo, comendo do fruto da árvore do bem o do mal. Assim, simbolicamente se torna cúmplice de toda a caminhada da mulher, que ele não percorreu. Ambos estão agora sob a lógica da árvore: podem gerar frutos, criar, procriar.

A mulher tem agora grandes aliados: a serpente, a árvore e o homem com quem pode completar-se sexualmente. Com todas estas forças que se associam ao desejo de tornar-se divindade criadora, nossa heroína está pronta para enfrentar o grande dragão desse mito: Aquele que a todos quer possuir, sem dar a ninguém a oportunidade do exercício da liberdade criadora. É a lógica do Deus Iahweh.

A mística da transgressão necessita de uma coletividade de aliados. É necessário uma comunidade fraterna entre aqueles que acreditam no novo mundo, na nova sociedade, na nova igreja.

5. Quinto passo: o rompimento

Segundo Capel apesar da ajuda dos aliados, o rompimento só pode resultar da transformação do herói e de novas habilidades. É hora de transpor o umbral do mundo dado para o mundo desejado.

Então abriram-se os olhos dos dois e perceberam que estavam nus; entrelaçaram folhas de figueira e se cingiram. Eles ouviram o passo de Iahweh Deus que passeava no jardim à brisa do dia e o homem e sua mulher se esconderam da presença de Iahweh Deus, entre as árvores do jardim. Iahweh Deus chamou o homem: ‘Onde estás?’, disse ele: ‘Ouvi teu passo no jardim,’ respondeu o homem; ‘tive medo porque estou nu, e me escondi.’ Ele retomou: ‘E quem te fez saber que estavas nu? Comeste, então, da árvore que te proibi de comer! ’ O homem respondeu: ‘A mulher que puseste junto de mim me deu da árvore, e eu comi!’ Iahweh Deus disse à mulher: ‘Que Fizeste?’ E a mulher respondeu: ‘A serpente me seduziu e eu comi.’ Então Iahweh Deus disse à serpente: ‘Porque fizeste isso és maldita entre os animais domésticos e todas as feras selvagens. Caminharás sobre teu ventre e comerás poeira todos os dias de tua vida. Porei hostilidade entre ti e a mulher, entre tua linhagem e a linhagem dela. Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar’. À mulher ele disse: ‘multiplicarei as dores de tuas gravidezes, na dor darás à luz filhos. Teu desejo te impelirá ao teu marido e ele te dominará.’ Ao homem, ele disse: ‘Porque escutaste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te proibira comer, maldito é o solo por causa de ti! Com sofrimento dele te nutrirás todos os dias de tua vida. Ele produzirá para ti espinhos e cardos, e comerás a erva dos campos. Com o suor de teu rosto comerás teu pão até que retornes ao solo, pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao pó tornarás.

Os olhos se abrem para aquilo que antes não se via. A pulsão sexual agora é investida de um para o outro. O homem deseja a mulher e a mulher deseja o homem. Mas eles continuam dentro da lógica do jardim. Então é necessário cobrir a genitália, para que aquilo que agora se torna visível e desejável possa ser contido provisoriamente. Adão e a mulher precisam enfrentar o poder do Deus Iahweh, que a ninguém permite viver sua possibilidade criadora. Para fazer sexo, era necessário transpor a Iahweh, era necessário transpor o portal do jardim.

O enfrentamento acontece como se fosse um grande tribunal de julgamento. Iahweh não suporta a concorrência com outros Deuses criadores. Como qualquer poder totalitário faria, Iahweh sentencia e expulsa os transgressores. A mulher, ao romper com a lógica da nomia do jardim, provoca um despertamento para a sexualidade, para a criatividade e para a liberdade de todas as criaturas.

6. Sexto passo: a celebração

Segundo Capel , a jornada termina com o retorno do herói, carregado de dádivas e de sabedoria. Ele é julgado mais sábio, mais profundo, quase divino. O herói que regressou não é o mesmo que partiu – devido, talvez ao casamento, à mudança de estado de um mortal para um Deus.

O homem chamou sua mulher ‘Eva’, por ser a mãe de todos os viventes. Iahweh Deus fez para o homem e sua mulher túnicas de pele, e os vestiu. Depois disse Iahweh Deus: ‘Se o homem já é como nós, versado no bem e no mal, que agora ele não estenda a mão e colha também a árvore da vida, e coma e viva para sempre!’ E Iahweh Deus o expulsou do jardim de Éden para cultivar o solo de onde fora tirado. Ele baniu o homem e colocou, diante do jardim de Éden, os querubins e a chama da espada fulgurante para guardar o caminho da árvore da vida. O homem conheceu Eva, sua mulher; ela concebeu e deu a luz a Caim.

A mulher passou a se chamar Eva, que significa Vida! Iahweh blefou, Eva não morreu e sim viveu – a serpente estava certa.

Adão e Eva passam a associar-se ao panteão divino, o próprio Deus Iahweh apresenta-se no plural e reconhece-os como Deuses. Aqui há um forte indício de que estamos falando de um Israel que é ainda profundamente politeísta.

O Deus Iahweh veste, então, Adão e Eva com túnicas finas, feitas de peles de animais, em um verdadeiro ritual de investidura. Vestir alguém com roupas finas é investi-lo de autoridade. Vestir Adão e Eva é parte do ritual de individuação presidido por Iahweh, onde este reconhece e investe de autoridade os novos Deuses ingressos ao panteão divino.

Os querubins são convocados para lacrar o Jardim e não permitir o acesso à árvore da vida. Parece que este é um novo blefe de Iahweh: proíbe o acesso à árvore da vida, quando a vida já está posta para Adão e Eva .

Agora, fora do jardim e de todas as forças castradoras da sexualidade humana, libertos da lógica do Deus Iahweh, a grande festa enfim vai ser celebrada: Adão e Eva se relacionam sexualmente! E desta relação nasce o seu primeiro filho chamado Caim. É a divindade de Adão e Eva atuando como Deuses criadores.

E assim se conclui a jornada da heroína Eva. De uma sexualidade completamente desconhecida, castrada, negada passa a uma sexualidade plenamente desejada, exercida, gozada e frutificada.

A profecia e a mística transgressora são elementos que se evidenciam em todos os passos da jornada do herói. A transgressão que suscita o rompimento, quinto passo da jornada, é a vocação por excelência do profeta e do místico. O profeta é um ser que destoa do status quo vigente.

O profeta é um ser incomodante, perturbador da ordem, um promovedor do caos. A transgressão de Eva foi fundamental para que o processo de individuação humana, nela representado arquetipicamente, pudesse ter acontecido. Não transgredir teria implicado em não nascer para a vida humana, para a sexualidade, para a fecundidade da terra, para a vida, enfim para a capacidade criadora. A profecia encontra em Gênesis 3 uma forte possibilidade de legitimação.

A mística transgressora que move o profeta, assim como o herói mítico e os santos, está contida dentro de todos os seres humanos como possibilidade. Para revelar esse profeta transgressor, é igualmente necessário atender ao chamado, e seguir os demais passos da jornada, que podem ser utilizados como um roteiro da mística transgressora. Eva é pois a primeira profetiza bíblica. Seu exemplo de indignação inspirou e tem inspirado muitos outros homens e mulheres a seguirem a mesma jornada profética, alimentados pelo mais profundo desejo de transformar o mundo dado no mundo desejado.

OUTRAS REFERÊNCIAS:

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BRENNER, A. (org.) Gênesis a partir de uma leitura de gênero. São Paulo: Paulinas, 2000.
CAPEL, H. O espelho de Atena. Mito e reflexão. Volume II. Goiânia: Deescubra, 2003.
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CIMOSA, M. Gênesis 1-11, a humanidade na sua origem. São Paulo: Paulinas, 1987.
ELIADE, M. Imagens e símbolos: ensaio sobre o simbolismo mágico-religioso. Trad. Sonia Cristina Tamer. São Paulo: Martins Fontes, 1971.
HOLLIS, J. Rastreando os deuses – o lugar do mito na vida moderna. Trad. Maria Silva Mourão Netto. São Paulo: Paulus, 1998.
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JUNG, C. G. Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 1986.
______. O eu e o inconciente. Trad. Dora Ferreira Silva. Petrópolis: Vozes, 1978.
______. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 3ª ed., Petrópolis: Vozes, 2003.
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OTTO, Rudolf. O sagrado. São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista, 1985.
RICOUEUR, P. O conflito das interpretações. Trad. M.F. Sá Correia. Porto – Portugal: RÉS, 1988.
ULSON, G. O método junguiano. São Paulo: Ática, 1988.
VERGARA, Elias Mayer. Fora do jardim! Uma leitura psicanalítica de Gênesis 3. Goiânia: Universidade Católica de Goiás, 2005.
VIORST, J. Perdas Necessárias. São Paulo: Melhoramentos, 1999.
WEIL, P. ; TOMPAKOW, R. O corpo fala: a linguagem silenciosa da comunicação não verbal. Petrópolis: Vozes, 1982.
WHITMONT, E. C. Retorno da Deusa. Trad. de Maria Silva Mourão. São Paulo: Summus, 1991.

ABORTO SIM, CASTRAÇÃO NÃO.


Os dados quantitativos de abortos no Brasil e na América Latina são alarmantes. Pensar que no Brasil tem mais de 1 milhão de seres humanos ao ano que são impedidos de viver antes nascerem, nos impõem uma grande reflexão sobre nossa responsabilidade nesse complexo mundo em que vivemos.

Recentemente uma pesquisa socioeconômica do IPEA, divulgada na mídia em maio de 2008, vem reafirmar aquilo que já é de nosso conhecimento histórico brasileiro: 75% das riquezas brasileiras estão nas mãos de apenas 10% da população.

O acúmulo de riquezas, como se sabe, é sempre gerador de miséria, doenças e morte. Quando se imagina que 90% da população brasileira terão de viver com apenas 25% da riqueza sobrante, mudamos completamente o eixo da consciência que se necessita ter para preservação da vida humana e da vida de nosso planeta.

Pouco se pergunta a respeito da possibilidade de vida daqueles milhares de bebês, que nascidos (não abortados portanto) não conseguem atingir o seu primeiro ano de vida, em função da miséria e da fome, a que são submetidos por essa grave e pecaminosa concentração de renda que muitas vezes é legitimada pela nossa conduta cristã ocidental.

E quando se defende ardentemente o direito a vida ao que ainda não nasceu e não se permite o mesmo direito a quem já é uma existência, estamos diante de uma grande retórica que possui profundos comprometimentos com uma negação da sexualidade pelo prazer/gozo e um grande descaso a respeito da vida daqueles que a concentração de renda (inclusive das Igrejas) não permite festejar o primeiro ano de sua existência.

Atrás dos 1 milhão e meio de abortos ano que ocorrem no Brasil, existe uma grande culpa social e uma grande responsabilidade das famílias, escolas, Igrejas e estado como um todo, que não cooperam para que haja desde a tenra idade, educação e acessibilidade aos métodos anticoncepcionais. A sexualidade sempre foi vista pela tradição cristã como apenas uma tarefa da procriação humana. O prazer do gozo do sexo nunca foi estimulado. Contra o gozo se fortaleceu a idéia da castração

A castração da sexualidade tem vitimado muito mais homens e mulheres do que as práticas abortivas. Por que o prazer conflita com o poder? O grande "falus" das instituições religiosas querem sempre sufocar o gozo dos indivíduos. Jovens, homens, mulheres, padres, bispos, papas, pastores, reverendos, freiras, frades, pobres, ricos, todos precisam gozar e desfrutar do sexo como uma das grandes fontes de prazer - talvez para a grande maioria de empobrecidos, a única fonte de gozo.

Se o cristianismo se preocupasse menos com o controle da sexualidade de seus fiéis, quem sabe poderia preocupar-se mais com seu papel profético, onde com forte atuação poderia cooperar para um grande projeto de distribuição de renda, que traria junto de si uma revolução educacional, onde cada qual teria a possibilidade de planejar sua prole e de incorporar TODOS os métodos ante-conceptivos, impedindo assim essa desenfreada prática abortiva.

Enquanto o feto estiver sendo gestado, é a mãe deste “ainda não ser” que deve decidir pela sua existência ou não. A mulher precisa ser respeitada no seu direito de abortar ou não. O CORPO DA MULHER PRECISA SER RESPEITADO. Pois será ela o colo e o principal seleiro de onde o recém-nascido irá buscar a força para se construir como pessoa, como ser humano, como cidadão.

Por Elias Mayer Vergara, OST.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

CANTARES: literatura pornográfica dos pastores e pastoras de outrora.


Esta é tua estatura,

semelhante à tamareira

e teus seios a cachos.

Eu disse: “Subirei na tamareira

pegarei nas suas tâmaras”,

e que sejam teus seios

como cachos

e o cheiro do teu nariz,

como o das maçãs

e o céu da tua boca como vinho bom,

indo para o meu amado verdadeiramente,

escoando dos lábios adormecidos.


Eu sou para meu amado

e sobre mim está o seu desejo.

Vai meu amado,

sairemos pelo campo,

passaremos a noite entre os ciprestes.

Madrugaremos para ir para as vinhas,

vejamos se floresceu a videira,

as abriu o rebento e se floresceram as romãs.

Lá darei,

meu amor para ti.

As mandrágoras deram seu perfume

diante de nossas portas todas as delícias,

novas, também velhas,

meu amado, guardarei para ti.

(Cantares 7, 8-14)





Nosso título deve ter assustado a quem está acostumado à leituras teológicas, exegéticas e pastorais. Como poderemos imaginar que dentro do livro sagrado exista uma literatura pornográfica?

Peço que não se escandalizem ao ponto de não ler estas linhas que nos vêem de um olhar muito mais psicanalítico do que teológico e exegético.

Assim me perdoem os teólogos e os exegetas, pois eu vou cometer alguns pecados ao lidar com este texto sagrado.

Minha pesquisa bíblica segue um outro caminho bem diferente daquele que estamos acostumados na academia e nos seminários. Aqui confesso o meu primeiro pecado: não dou tanta importância ao método histórico crítico, mesmo reconhecendo a sua grande contribuição para o entendimento de alguns textos. Estou convencido de que a Bíblia está muito mais marcada pela mitologia do que pelos relatos históricos.

Começo minha pesquisa de Cantares usando um recurso fabuloso que hoje a internet pode nos disponibilizar: as imagens! Selecionamos uma palavra e o computador vasculha o mundo inteiro, e nos traz em segundos as imagens que foram colocadas na rede que ilustram a palavra de nosso interesse. Isso é incrível! Fiz então esta pesquisa com Cantares. E qual a minha surpresa? Não há quase nenhuma representação iconográfica deste bonito livro da Bíblia. Raras são as imagens que ilustram o livro de Cantares. Tente você mesmo e verifique como são raras as imagens que ilustram o conteúdo deste livro na internet. Não achei este texto ilustrando o interior de igrejas ou de catedrais, como é comum com vários outros textos bíblicos.

Fiquei me perguntando o por quê? E percebi que o livro de Cantares é também muito pouco lido nos cultos e celebrações de nossas igrejas cristãs. Então fiquei imaginando como seria fazer um filme de Cantares, ou então escrever uma história em quadrinhos de Cantares, ou então pintar as principais cenas deste livro em uma bonita catedral. O resultado seria: a PORNOGRAFIA !

Não se assustem. A palavra pornografia tem haver com imagens da prostituição. Isso mesmo. Imagens ou textos que nos remetem a uma sexualidade proscrita, a uma sexualidade desencaixada, a uma sexualidade marginal. Assim me parece ser a literatura de Cantares. Um texto tão desencaixado, tão proscrito, tão marginal que nem mesmo a iconografia ousou representa-lo no interior das igrejas. Imaginemos uma peça teatral representando as cenas descritas em Cantares e imaginemos este teatro sendo apresentado no lugar da leitura da palavra, dentro do culto evangélico ou da missa católica...! Impossível representar este texto bíblico, sem abrirmos à caixa lacrada dos desejos humanos, ligados a libido, a sexualidade corpórea, libertando a energia erótica humana.

Assim, por séculos, este conteúdo pornográfico foi censurado das mais diferentes formas. Alguns disseram que os personagens deste texto, não são humanos, representam a Igreja e o Deus Javé. Outros simplesmente ignoram este livro, como se ele não existisse.

Parece que é exatamente assim que fazemos com a literatura pornográfica. Ela faz parte da vida da maioria das pessoas. Ajuda nos processos de iniciação sexual de meninos e meninas, ajuda a libertar desejos proibidos em jovens, adultos e em idosos. Ajuda a libertar fantasias sexuais. Enfim, a literatura pornográfica tem um papel muito positivo no desenvolvimento e na vivência sadia da sexualidade humana. E a sua marginalidade só confirma a profunda crise que sempre viveu a humanidade cristã: a distância dos desejos sexuais e a possibilidade real de sua satisfação.

Assim me permito imaginar que a literatura contida em Cantares é uma literatura do amor erótico marginal do tempo dos pastores e das pastoras. Em Cantares se fala de sexualidade explícita. A transa não tem limites de lugar, de padrões institucionais, ou de preceitos religiosos. Não se fala em Deus neste livro, pelo menos não no Deus que castra e que domina – um livro secular. E os protagonistas da sexualidade em Cantares não são casados, são solteiros. E em sua solterice, se permitem o exercício da sexualidade sem limites, sem fronteiras. Cantares fala o tempo inteiro dos seres humanos e de suas necessidades mais ocultas e profundas – os desejos e fantasias eróticas marginais, é neste sentido uma literatura pornô - gráfica.

Se você conseguiu me acompanhar até aqui, lhe convido agora a fazer uma visitação em nossa literatura poética brasileira da MPB, onde busco uma música bastante polêmica que mexe com os nossos conceitos de amor, sexualidade, sagrado e profano.

Amor é um livro - sexo é esporte

Sexo é escolha - amor é sorte

Amor é pensamento - teorema

Amor é novela - sexo é cinema

Sexo é imaginação - fantasia

Amor é prosa - sexo é poesia

O amor nos torna patéticos

Sexo é uma selva de epiléticos

Amor é cristão - sexo é pagão

Amor é latifúndio - sexo é invasão

Amor é divino - sexo é animal

Amor é bossa nova - sexo é carnaval

Amor é para sempre, sexo também

Sexo é do bom... Amor é do bem...

Amor sem sexo é amizade

Sexo sem amor é vontade

Amor é um, sexo é dois

Sexo antes, amor depois

Sexo vem dos outros,

E vai embora

Amor vem de nós,

E demora

Amor é cristão - sexo é pagão

Amor é latifúndio - sexo é invasão

Amor é divino - sexo é animal

Amor é bossa nova - sexo é carnaval

Amor é isso, sexo é aquilo

E tal e coisa... e coisa e tal

(Amor e o sexo – Rita Lee, Roberto de Carvalho e Arnaldo Jabor)


Quantas perguntas nos trazem esta pequena poesia. Sempre nos foi ensinado que o sexo só pode ser vivido se for com amor. E em nossas igrejas cristãs não se fala em sexo, só em amor. Quem cuida então da sexualidade ?

- É justamente a pornografia! Admitamos ou não, todo o bom cristão já fez algum acesso a farta literatura pornográfica disponível nas bancas de revistas, nos filmes do cinema, ou nos computadores domésticos.

Por que se tem tanto medo de aproximar a religião da sexualidade? Vejamos o que a música acima nos diz sobre o sexo - ele é: um esporte, escolha, do escurinho do cinema, mexe com a imaginação e a fantasia, é uma selva de epiléticos, é pagão, é invasão, é animal, é carnaval, é para sempre, é bom. Em resumo: sexo não se controla, não se domestica.

No mundo sagrado cristão não fala em sexo, pois a prática livre da sexualidade promove a libertação mais ampla do ser humano. Logo se conclui que as práticas religiosas que castram as pessoas pretendem impor um processo constante de domesticação e submissão, tornar o ser humano “fiel”.


A libertação da literatura pornográfica


A literatura pornográfica é muito mais extensa e bem elaborada, do que podemos imaginar. Tem uma longa história de grandes intelectuais que dedicaram as suas vidas a produzir a linguagem que fala para os desejos mais internos e íntimos dos seres humanos. Esses desejos estão sempre contidos de forma muito segura em nosso inconsciente. Ali moram todas as nossas fantasias que se constituem, ao longo de nossa história de vida, onde acumulamos profundas e intensas frustrações. Libertar esses sentimentos que estão tão bem guardados em nós, é sempre perigoso, pois quando ganham a realidade, empoderam os homens e mulheres, com muita energia que lhes permite promover coisas que antes não se permitiam.

A literatura pornográfica cumpre um papel muito semelhante ao das bebidas que embriagam as pessoas. Liberta a libido, liberta os desejos, liberta o ser humano para o novo e para o gozo. Talvez por esta razã as Igrejas de uma forma geral, condenam tanto a pornografia e as bebidas alcoólicas. Pois não desejam de fato libertar o ser humano, e sim fazer-los fiéis, no sentido de obedientes, pacíficos, ordeiros.

Não pretendo aqui fazer um longo histórico da literatura pornográfica, pois esta pesquisa está disponível na internet para quem desejar continuar a aprofundar este tema. Não se sinta constrangido ou constrangida, pesquise sobre a história da literatura pornográfica e você vai ser surpreendido(a) com o um universo altamente libertário contido nesta produção humana.

Quero apenas sugerir que possamos olhar para o nosso texto sagrado, com um pouco mais de malícia, com um pouco mais de desejo sexual, com um pouco mais de interesse no prazer carnal, que levam as pessoas a gozarem e serem felizes - plenas.

Por esta razão trago aqui uma poesia pornográfica que encontrei em meio a tantas coisas espetaculares que estão sendo produzidas. Viajando pelo “youtube”, na internet, encontrei Elisa Lucinda, uma grande poetisa brasileira contemporânea que precisa ser conhecida em seu todo, para que possamos entender que a sua poesia pornográfica é altamente libertária e desmascara nossa hipocrisia cristã, que tenta negar o tempo inteiro o nosso desejo, as nossas fantasias.

Passam muitas pessoas no saguão dos aeroportos.

Passam neste aeroporto da agora,

e eu, no meu pensamento,

não me comporto, imagino elas fodendo:

fulano com fulano,

são casados, gozam, fazem planos?

E ela, quer logo que acabe?

E ele, penetra rosnando?

Fantasio as inúmeras possibilidades de encaixes,

em como foram as noites de amor que tiveram para fazer essas

crianças chinesas africanas alemãs francesas mexicanas libanesas

brasileiras cabo-verdianas espanholas cubanas holandesas

senegalesas turcas e gregas.

(meu pensamento é inconveniente mas ninguém sabe, escrevo num café, estou, por fora, muito chique no cenário e nitidamente estrangeira.)


Agora passam dois homens.

Sentam à mesa ao lado.

Falam germânico mas a tradução é da mais alta putaria,

Uma iguaria da mais pura sacanagem!

Eu sei, são gays. Eles não sabem que eu sei.

Pensam que escrevo o abstrato

E capricham descansados ao colo do idioma que não alcanço.

Mas sou poliglota na linguagem dos olhares,

cílios a mais antiga cortina do mais antigo teatro

na pátria universal dos gestos, meu bem!

Eles não escapam.

Um chupa muito o outro, que eu sei,

e o magrinho gosta de dar por cima e de lado.

Importante dizer que dentro desse meu pensamento safado

também não tem pecado.

Só me diverte

Ver o que todos negam,

O que não se diz no social,

Uma radiografia verbal da intimidade alheia é o que faço aqui,

Sem que ninguém suspeite,

Sem ninguém me permitir.

Aquele tem pau pequeno e, pior que isso,

e, mais que suas parceiras, acha isso um problema.

Aquele ali também tem, mas arde na cama e se empenha muito

compensando a diferença.

Aquela, num outro esquema,

diz não gostar da coisa

e fala sem parar.

Só uma pirocada de jeito para fazê-la calar.

A gostosa gordinha engole a espada todinha

daquele altão desajeitado,

cujo grosso membro se torna,

em meio às coxas dela, disfarçado.

E o velhinho punheteiro

De pau mole com jornal no colo?

Talvez seja o único a adivinhar o teor dos meus escritos,

dado que me olha dissimulado e constante

de modo a nunca perder meus segredos de vista.

(Com licença mas é dessa matéria hoje minha poesia)

Enxerida, vejo a mulher com cabelo cortado à la moicano

Com a menina que iniciara a tiracolo,

Feliz sem ser por ela lambida

E sem saber no que estou pensando.


Passam as pessoas

no saguão do aeroporto,

fingem que fazem check-in

fingem viajar sérias e de férias,

fingem estar trabalhando...

mentira,

pra mim ta todo mundo trepando! (LUCINDA, 2006)


Que bom que você deu conta de chegar até aqui. Acho que algumas pessoas já nos abandonaram no início deste artigo. Mas sempre tem alguém que se interessa pela pornografia. É aquele sentimento do proibido que vai despertando o interesse e então vamos nos permitindo transgredir aos padrões estabelecidos e pouco a pouco, vamos libertando os nossos grandes e pequenos desejos internalizados em nossa alma. Não deveria a religião fazer justamente isso: libertar os desejos da alma? Fazer as pessoas felizes? Permitir e estimular o gozo e o prazer humano?

O saguão do aeroporto de Frankfurt, cenário por onde Elisa Lucinda desnuda os sentimentos de desejo e de gozo, contidos das pessoas que por ali circulam, pode ser qualquer outro lugar. No ambiente de trabalho, no passeio pelo parque, na festinha de aniversário, no escurinho do cinema, no jogo de futebol, nas reuniões do partido político, nos grandes comícios, nas reuniões de culto ou da missa. Em qualquer lugar e em qualquer tempo, vamos sempre encontrar seres humanos desejosos e ávidos pela satisfação de seus desejos. Assim sendo faça você mesmo o exercício de imaginar como Elisa Lucinda, as mais variadas tramas de amor e de sexo que estão contidas nos gestos, nos olhares, nas palavras que vamos proferindo por aí em qualquer lugar.

Agora convido você a voltar ao texto bíblico de cantares. Leia-o atentamente e faça como Elisa Lucinda, deixe que a sexualidade seja liberta na trama literária do amado e da amada. Com olhares mais pornográficos se verá que não é possível ler Cantares, sem que nossa sexualidade seja também envolvida, despertada. E então Cantares nos ajuda a nos tornarmos seres desejantes, eróticos, prontos para o amor e também para o sexo.

Assim podemos construir um novo olhar para muitos outros textos da Bíblia. Você mesmo poderá eleger algum texto de sua preferência. Basta haver pessoas se relacionando, poderemos ver ali a sexualidade humana sendo despertada e despertando as pessoas para a vida, para o gozo, para o prazer e para a liberdade.

Portanto a Bíblia é sim um livro sexuado. Pois ela retrata a história do cotidiano de homens e mulheres, jovens e crianças, gays e lésbicas, prostitutas e prostitutos, adúlteros e adúlteras. Fico pensando como seria oportuno que em cada trabalho exegético que fazemos de algum texto da Bíblia, pudéssemos agregar a pergunta sobre a sexualidade humana contida naquele texto. Com certeza faríamos grandes descobertas, e nossos preconceitos no campo da sexualidade começariam a ser desconstruidos.

Por isso recomendo que façamos muitos exercícios de leitura pornográfica. É claro que como toda a literatura existem produções de boa e de péssima qualidade. O juízo será nosso. Mas façamos o exercício. Nossa pequena caixinha de desejos escondidos a sete chaves, começará a ser libertada e vamos ver que muitas coisas que vemos nos outros, como comportamento inadequado, também está contido em cada um de nós.

Vamos ler Cantares não só com os olhares dos santos e dos religiosos, nem só com os olhares dos bem casados. Vamos entrar neste livro com os olhares de nossos mais íntimos desejos e fantasias sexuais e eróticas. Assim descobriremos que nossos desejos tão duramente condenados e pecaminalizados, são desejos humanos, de pessoas humanas que almejam a completude, de carinho, de amor e de sexo – “para que o meu gozo permaneça em vós, e o vosso gozo seja completo” (João 15,12)



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