quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Debate sobre a Homossexualidade na Comunhão Anglicana e a “Nova Moralidade” de John Robinson

Nem sempre a Igreja tem ficado de fora da luta pelos direitos humanos dos gays e lésbicas. Sensibilizada pelas afrontas que recebiam da sociedade, a Igreja procurou trabalhar seu posicionamento sobre a questão, principalmente no que diz respeito à dignidade humana dessas pessoas. Possivelmente, o primeiro envolvimento da Igreja na questão, antes de começar o debate sobre a admissão de homossexuais no ministério ordenado tenha sido na década de 50. Nessa época, as práticas homossexuais eram proibidas por lei no Reino Unido e em grande parte da Europa. Na Dinamarca, homossexuais poderiam até mesmo ser punidos com a castração, enquanto que, na Inglaterra, eram aprisionados. Em 1952, o Conselho para o Bem Estar Moral, da Igreja da Inglaterra, iniciou um programa de estudo sobre a questão. 1 O resultado do estudo foi aprovado pelo Sínodo da Igreja. Como conseqüência destes estudos, o governo britânico nomeou uma comissão (Wolfenden Commitee) para tratar do assunto de modo que em 1967, a lei que tratava as práticas homossexuais como crime foi alterada.

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Por que sexualidade?

“Sexo é sempre político”. Sua politicização implica em um esforço contínuo no sentido de eliminar as fronteiras entre o sexo “bom” e o sexo “ruim” que decorrem das “hierarquias de valor sexual” estabelecidas pela religião, pela medicina, pelas políticas públicas e pela cultura popular. Estas hierarquias “funcionam do mesmo modo que os sistemas ideológicos do racismo, do etnocentrismo e do chauvinismo religioso. Elas racionalizam tanto o bem-estar daqueles/as que são sexualmente privilegiados/as quanto a adversidade do ‘populacho’ sexual”. Mas em alguns momentos históricos, as negociações e debates sobre o bom e o mau sexo são “mais agudamente contestadas e abertamente politizadas”. Não é difícil perceber que vivemos num desses períodos.
Estas percepções da feminista norte-americana e ativista dos direitos sexuais Gayle Rubin foram publicadas num artigo há quase duas décadas (1). Contudo, os conflitos éticos e políticos identificados por Rubin, longe de se resolver, se tornaram mais agudos e hoje se desdobram em escala global. No atual contexto – com o ressurgimento do extremismo religioso em suas muitas manifestações –, estão em curso reações violentas contra o feminismo e o movimento LGBT. Ao que se soma a “guerra contra o terror” que racionaliza a militarização persistente e até mesmo a tortura, inclusive a tortura sexual. De um lado, a hegemonia militar e econômica dos EUA, até então gerida por um presidente cristão fundamentalista; de outro, a capacidade das sociedades de limitar o poder dos Estados está debilitada. Em tais circunstâncias, as maiores vítimas são a paz, os direitos humanos e a possibilidade de que as pessoas possam viver suas vidas de forma plena e prazerosa.

Esta é uma época extraordinariamente perigosa para as pessoas que são proscritas por efeito do seu gênero ou de sua sexualidade, sejam elas gays e lésbicas, transgênero, pessoas intersexo, jovens solteiras e solteiros, trabalhadores e trabalhadoras do sexo, ou mesmo mulheres heterossexuais cuja vida erótica e social não obedece a padrões tradicionais. Esse é um tempo especialmente perigoso para mulheres e meninas que se encontram em meio ao fogo cruzado de conflitos étnicos e das guerras civis onde estão sujeitas ao estupro em campos de refugiados ou à contaminação por HIV por homens “predadores” ou negligentes. Como Rubin sugeriu, em tempos assim, a ansiedade popular freqüentemente toma a forma do “pânico moral” que tem como alvo grupos sexualmente marginalizados e vulneráveis. Nessas circunstâncias complexas e difíceis, acreditamos que todas as pessoas cujos direitos à integridade de seus corpos estão ameaçados devem constituir coalizões robustas para defender a justiça social, a justiça de gênero e a justiça erótica.

FONTE: http://www.sxpolitics.org/pt/?cat=26

Princípios de Yogyakarta

Em novembro de 2006, um grupo de especialistas se reuniu em Yogyakarta, Indonésia: especialistas independentes da ONU, integrantes de comitês de direitos humanos, acadêmicas/os e defensoras/es de direitos humanos das pessoas GLBTT. Elas/es adotaram os Princípios de Yogyakarta sobre a Aplicação da Legislação Internacional de Direitos Humanos em relação à Orientação sexual e identidade de gênero:
 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Igreja Anglicana de São Paulo cria coral masculino gay

Uma inusitada idéia partiu da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, que fica localizada no Centro de São Paulo. A idéia foi criar um coral masculino gay, com o objetivo principal, segundo o maestro Walter Fajardo, incluir os participantes (do coral) na sociedade, através da música, em eventos culturais.


O convite de Walter partiu do reverendo da Igreja, Arthur Cavalcante (atualmente eleito secretátio geral da IEAB) , que iniciou o grupo no dia 21 de Dezembro de 2009. A novidade já conta com a adesão de 12 homens, porém a idéia é chegar a 40 pessoas, a exemplo de outros corais gays masculinos já organizados em outras cidades como Nova Iorque, Londres ou São Francisco.

A Paróquia Santíssima Trindade, local onde o reverendo Cavalcante atua, já recebeu inclusive uma homenagem do Governador José Serra. O prêmio recebido foi o Selo Paulista da Diversidade, que reconhece ações voltadas a grupos discriminados.

Qualquer pessoa pode participar do coral, independente de sua orientação sexual. Os interessados em participar do Coral Masculino Gay de São Paulo devem entrar em contato com a Secretaria da Paróquia da Santíssima Trindade no endereço: Praça Olavo Bilac, 63, Campos Elíseos, São Paulo. Ou ainda pelo telefone: (11) 3667-8161 ou através do e-mail traindade@trindade.org

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A visibilidade homossexual

por Maria Lúcia P. de Oliveira

"Um dia numa sala de aula uma aluna falou: por que eles não ficam no lugar deles, sem agredir os costumes e a moral? A gente não é obrigado a conviver com esse tipo de comportamento, como explicar isso para as crianças?"

Falar sobre relações homoafetivas é entender que o que acontece nas relações entre pessoas do mesmo sexo não se refere apenas a sexualidade, a relações erotizadas. Alguns setores da sociedade ainda consideram o homossexualismo como doença. Temos as dificuldades das famílias em elaborar e aceitar seus filhos como eles são. Temos cidadãos que constroem suas vidas exercendo todos os seus direitos e deveres. Mas temos também os homofóbicos.
As principais organizações mundiais de saúde, incluindo o Conselho Federal de Psicologia, não consideram a homossexualidade uma doença. Em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria deixou de classificá-la como doença; nesse mesmo período, também foi retirada do Código Internacional de Doenças. Já em17 de maio de 1990, a assembleia-geral da Organização Mundial de Saúde declarou que "a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão".

Contudo, a família, quando o filho ou filha assume sua identidade sexual, sente-se envergonhada e temerosa quanto ao futuro, de seus filhos e dela mesma. A grande maioria de pais sente-se culpada pela orientação sexual de seus filhos. Pergunta que parece inevitável: "Onde foi que eu errei?" As fantasias de ter netos, de ver o filho casado, e a necessidade de enfrentar as cobranças da sociedade são uma tarefa que merece um tempo para ser elaborada. Esses pais precisam também de um tempo para digerir seus medos, suas inseguranças e suas fantasias sobre como enfrentar vizinhos, parentes e preconceitos sociais construídos.

Até há bem pouco tempo, não se discutia a situação dos casais homossexuais, e o que existia eram guetos de homossexuais, a invisibilidade gay, verdadeira segregação social do HOMOSSEXUAL. Hoje estamos vivendo um processo inverso, o da visibilidade. E essa visibilidade parece ofender, provocar a ira daqueles que não toleram dividir o espaço com a diversidade de possibilidades de expressão do sujeito.

Os problemas enfrentados por casais homossexuais passam por todos aqueles de qualquer casal heterossexual e mais aqueles relacionados ao preconceito, à discriminação social. Viver uma relação como casal gay exige um custo emocional muito grande para os parceiros, pois, independentemente da orientação sexual, o que as pessoas buscam é amar, é ter gratificação, realização, é simplesmente "ser humano", ser respeitado.

Mas estamos avançando. Temos hoje uma situação socialmente provocadora, a visibilidade dos casais homossexuais. É um novo modelo conjugal que está sendo construído e que é difícil para os próprios casais, pela ausência de modelos de outros casais homossexuais. Assumir a vida como um casal gay, dividir, pagar contas, relações familiares, amigos, viver de forma visível nessa sociedade é uma tarefa inovadora e pós-moderna, que exige de todos nós novas atitudes diante dessa nova construção.

Estamos saindo de um modelo HOMOSSEXUAL estereotipado, caricato, para um modelo gay cidadão. Homens e mulheres que trabalham e constroem um mundo melhor, com parcerias, e com dignidade. A história é longa, cheia de turbulências. Abrir novos espaços, novos caminhos, mudar a cultura, tudo isso é uma tarefa árdua, difícil, pois mobiliza valores tradicionais daqueles que lutam para manter o status quo. E nesse momento, se não houver um esforço para a aceitação das diferenças, da diversidade de possibilidades de expressão do sujeito, as interações sociais podem tornar-se uma prática selvagem.

Maria Lúcia Pereira de Oliveira é mestre, psicóloga clínica e professora de psicologia

FONTE: JORNAL O POPULAR, dia 07/01/2011, p.13

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

NESTE TEMPO DE NATAL, NOVO PROFETA NOS VEM DE LIMOEIRO DO NORTE, CEARÁ, BRASIL

A Pastoral da Diversidade Sexual deseja homenagear Dom Edmilson da Cruz, 86 anos, bispo emérito de Limoeiro do Norte / Ceará, Brasil, como UM DOS GRANDES PROFETAS DE 2010.


Veja porque:

Bispo emérito de Limoeiro do Norte
 recusa comenda concedida pelo Senado


TERÇA, 21 DE DEZEMBRO DE 2010 18:23 CNBB

O bispo emérito de Limoeiro do Norte (CE), dom Manuel Edmilson da Cruz, 86, recusou a Comenda de Direitos Humanos Dom Helder Camara, entregue hoje, 21, no Senado Federal, a pessoas que se destacaram na defesa dos Direitos Humanos. Dom Edmilson, que teve seu nome indicado pelo senador Inácio Arruda (CE), disse que receber a Comenda seria “um desrespeito aos direitos humanos do contribuinte” por causa do aumento de 61% do salário que os parlamentares se deram na semana passada.

“A condecoração hoje outorgada não representa a pessoa do cearense maior que foi Dom Helder Camara. Desfigura-a, porém. Sem ressentimentos e agindo por amor e por respeito a todos os Senhores e Senhoras, pelos quais oro todos os dias, só me resta uma atitude: recusá-la!”, disse o bispo.

Para dom Edmilson, o aumento do salário recebido pelos parlamentares deveria ser na mesma proporção do aumento do salário mínimo e do aposentado. “O aumento a ser ajustado deveria guardar sempre a mesma proporção que o aumento do salário mínimo e da aposentadoria. Isto não acontece. O que acontece, repito, é um atentado contra os Direitos Humanos do nosso povo”.

Além de dom Edmilson, foram condecorados o bispo emérito de São Felix do Araguaia (MT), dom Pedro Casaldáliga; os defensores públicos, Wagner de La Torre e Antônio Roberto Cardoso e o deputado estadual do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo. A escolha dos nomes foi feita pelo Conselho da Comenda de Direitos Humanos Dom Hélder Câmara, e pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal (CDH).

Confira a íntegra do discurso de dom Edmilson
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Discurso de Dom Manuel Edmilson da Cruz, Bispo Emérito da Diocese de Limoeiro do Norte – CE, durante a outorga da Comenda de Direitos Humanos Dom Helder Camara, conferida pelo Senado Federal, no dia 21 de dezembro de 2010.

A surpresa chegou aos meus ouvidos à noitinha, quinta-feira 16 de dezembro. Como o alvorecer da aurora e a vibração cantante de um bom-dia. Mais que surpresa: era como se alguém de extraordinária generosidade tivesse enfocado uma libélula projetando a sua leveza e levando-a a atingir as proporções de um águia ou de um condor.

Passa por esse crivo o meu cordial agradecimento ao senhor Senador Inácio Arruda, aos seus ilustres Pares que o apoiaram e a todo Congresso Nacional.
Pensei, em vista dos meus oitenta e seis anos, em receber essa honraria por meio de um representante. Mas Congresso Nacional merece respeito. Verdadeiro Congresso Nacional é sinal de verdadeira democracia.

A honrosa condecoração, porém, dos Pais da “Pátria”, (como diriam os Romanos “Patres Conscripti”), me faz refletir. Precatórios que se arrastam por décadas; aposentados, idosos com suas aposentadorias reduzidas; salários mínimos que crescem em ritmo de lesmas... depois de três meses de reivindicações e de greves, os condutores de ônibus do transporte coletivo urbano de Fortaleza, dos cerca de 26% de aumento pretendido, mal conseguiram e a duras penas, pouco mais de 6%, quer para a categoria, quer para o povo, principalmente os pobres da quinta maior cidade do nosso Brasil.

Pois é exatamente neste momento que o Congresso Nacional aprova o aumento de 61% dos honorários de seus Parlamentares que em poucos minutos chegam a essa decisão e ao efeito cascata resultante e o impõe ao povo brasileiro, o seu, o nosso povo. O povo brasileiro, hoje de concidadãos e concidadãs, ainda os considera Parlamentares? Graças ao bom Deus há exceções decerto em tudo isso. Mas excetuadas estas, a justiça, a verdade, o pundonor, a dignidade e a altivez do povo brasileiro já tem formado o seu conceito. Quem assim procedeu não é Parlamentar. É para lamentar. Prova disto? Colha na Internet.

Bem verdade é que a realidade não é assim tão simples e a desproporção numérica, um dado inarredável. Já existe – e é de uma grandeza bem aventurada! – o SUS; o bolsa família. Aí estão trinta milhões de brasileiros, que da linha de pobreza, às vezes até da indigência, alcançaram a classe média. É verdade a atuação do Ministério da Saúde. Existe o Ministério da Integração Nacional. É verdade! Mas não são raros os casos de pacientes que morreram de tanto esperar o tratamento de doença grave, por exemplo, de câncer, marcado para um e até para dois anos após a consulta. Maldita realidade desumana, desalmada! Ela já é em si uma maldição. E me faz proclamar em pleno Congresso Nacional, como já o fiz em Assembléia Estadual e em Câmara Municipal: Quem vota em político corrupto está votando na morte! Mesmo que ele paradoxalmente seja também uma pessoa muito boa, um grande homem. Ainda não do porte de um Nelson Mandela que, ao ser empossado Presidente da República do seu país, reduziu em 50% o valor dos seus honorários.

Considerações finais

Senhores e Senhoras,

Sinto-me primeiro, perplexo; depois, decidido. A condecoração hoje outorgada não representa a pessoa do cearense maior que foi Dom Helder Camara. Desfigura-a, porém. Sem ressentimentos e agindo por amor e por respeito a todos os Senhores a Senhoras, pelos quais oro todos os dias, só me resta uma atitude: recusá-la! Ela é um atentado, uma afronta ao povo brasileiro, ao cidadão, a cidadã contribuintes para o bem de todos com o suor de seu rosto e a dignidade do seu trabalho. É seu direito exigir justiça e eqüidade em se tratando de honorários e de salários. Se é seu direito e eu aceitar, estou procedendo contra os Direitos Humanos. Perderia todo o sentido este momento histórico. O aumento a ser ajustado deveria guardar sempre a mesma proporção que o aumento do salário mínimo e da aposentadoria. Isto não acontece. O que acontece, repito, é um atentado contra os Direitos Humanos do nosso povo.
A atitude que acabo de assumir, assumo-a com humildade. A todos suplico compreensão e a todos desejo a paz com os meus sinceros votos e uma oração por um abençoado e Feliz Natal e um próspero e Feliz Ano Novo!

DEUS SEJA BENDITO PARA SEMPRE

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Abraços,
Rev. Elias Vergara, OST